VIDA A 5000 METROS


A placa no meio do caminho avisa: estou na província de Corani, no sul do Peru. Bastam mais algumas horas subindo e descendo as estradas estreitas que cortam as montanhas para chegar na mineradora Bear Creek, que será meu QG pelos próximos dias. Foto: Ana Caroline de Lima. Todos os direitos reservados.


O sol ainda não nasceu em Chacaconiza, vilarejo com pouco mais de 400 pessoas no altiplano do Peru, quando escuto gritos vindos das montanhas. A primeira coisa que me passa pela cabeça é: estou sonhando. Afinal, quem iria ter fôlego para berrar em mais de 5300 metros de altura, às cinco da manhã, debaixo de uma nevasca bem forte?


Mas o barulho continua. Vozes de homens, gritando em uníssono como se fizessem parte de um 'exército das alturas'.


Você pode estar se perguntando: "mas por que ela não olha pela janela?". Simples. Não há janela. Os ventos fortíssimos deixam a temperatura de -10° parecer muito mais baixa, mesmo com um aquecedor e vários cobertores de alpaca em um dos muitos quartos da mineradora onde estou 'hospedada'. Sim, você leu certo. Uma mineradora.


Estou em uma região onde o turismo praticamente não existe, já que são poucas as pessoas com coragem suficiente para dormir em um lugar onde o ar é tão rarefeito. A altura ultrapassa os 5100 metros do Acampamento Base do Everest, com a diferença que não é uma aventura de montanhista: as pessoas nasceram, trabalham e vivem aqui. A cidade mais próxima está a muitas horas de viagem por estradas extremamente perigosas. Por isso, para esse assignment sobre a vida de artesãs indígenas, uma mineradora canadense que opera na região e é parceira da ONG para a qual eu fotografava, abriu as portas para que eu pudesse passar uns dias por lá.

Vê aquela construção lá embaixo? É a mineradora de prata e urânio onde eu estava. Os gritos vinham do ponto mais alto da estrada, já perto das nuvens. Foto: Ana Caroline de Lima. Todos os direitos reservados.


O frio era tão forte que eu resolvi voltar a dormir. Mas a primeira coisa que fiz no café-da-manhã foi perguntar se alguém também ouviu os gritos nas montanhas. A cozinha toda cai na risada. Depois de rir, rir até perder o fôlego, um dos funcionários diz "Desculpe por ter te acordado. Todas as madrugadas, saímos para treinar nas montanhas. Corremos por uma hora e gritamos qualquer coisa para manter o fôlego." Aí quem ri sou eu. Manter o fôlego correndo na neve em um lugar onde o simples fato de andar debaixo do sol já te deixa sem ar só pode ser piada.


Na foto feita com o celular, a pausa para o café-da-manhã. Na mineradora, a cozinha é assim, parecida com uma base do exército. Apesar de parecer frágil, a construção foi projetada para proteger do frio e dos ventos fortes. Foto: Ana Caroline de Lima. Todos os direitos reservados.


Mistério solucionado, é hora de acompanhar a gravação de um mini-vídeo institucional. Escolhemos uma artesã chamada Sílvia para 'estrelar a campanha'.

Sílvia e o time de filmagem da ONG preparando um vídeo institucional pouco depois do pôr-do-sol. Foto: Ana Caroline de Lima. todos os direitos reservados.


Assim que a equipe de videógrafos deixar o povoado nos próximos dias, Sílvia vai ser minha 'fixer', assistente e modelo para o ensaio "Andinos". Assistente diferente? Tem muito mais gente que ajudou, mas isso é assunto para o próximo post.


E você? Já visitou algum lugar de altitude extrema? Conta pra gente nos comentários!


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